CRESCIMENTO DE IÇARA: FATORES, CAUSAS, DISCUSSÕES ** Ademar José Fabre *

CRESCIMENTO DE IÇARA: FATORES, CAUSAS, DISCUSSÕES **
Ademar José Fabre *
O crescimento econômico e social de Içara tem chamado a atenção de autoridades, políticos e empresários do município e região que, ao procurar enumerar as causas para tal crescimento têm citado, genericamente, a localização geográfica, a  presença da BR-101 e suas  vias de acesso àquela rodovia, como a SC-444; no entanto, tais análises têm deixado de mencionar  o principal fator de crescimento, que é a vizinhança com a cidade de Criciúma, pólo regional do sul, sede de uma região metropolitana em formação e em estágio inicial de conurbação com a própria cidade de Içara.
A respeito, o Plano Básico de Desenvolvimento-PBDEE da AMREC, de 1997, já concluía  que os fatores  de maior peso no crescimento de Içara e, consequentemente, na sua explosão demográfica, têm sido, além de  sua localização geográfica, a meia distância entre Criciúma e a BR-101, as vantagens locacionais para inúmeros empreendimentos industriais, comerciais e  de serviços, a maioria tirando proveito da  proximidade da cidade-pólo de Criciúma.
Obras de infra-estrutura rodoviária, como as citadas, facilitam o deslocamento de produtos, serviços e pessoas, de um ponto a outro, mas não garantem a fixação, em sua margem, de empreendimentos que induzem ao crescimento, se outras pré-condições não estiverem presentes, como os fatores ou vantagens locacionais e as economias de aglomeração, que induzem empreendedores locais ou de fora a se instalar no município.
Se o caso de Içara é um exemplo positivo nesse sentido, alguns casos menos favoráveis podem ser citados, na própria região sul, como  Maracajá, Sangão e Jaguaruna que , mesmo com suas sedes muito próximas da rodovia federal,  não contam com tais vantagens locacionais e não têm conseguido atrair empreendimentos de peso  para seu território.
A chamada economia espacial, bem como as teorias de localização e polarização explicam que, nas regiões polarizadas, como a carbonífera, as cidades satélites, especialmente as mais bem localizadas, atuam, no primeiro momento , como cidades-dormitório, fornecendo mão-de-obra para a cidade-pólo, onde buscam os serviços de média/grande complexidade (comércio, educação, saúde e outros).  
No segundo momento, essas cidades crescem, começam a ter vida própria, beneficiadas pela localização/vizinhança da cidade-pólo e passam a compartilhar da oferta de tais serviços para si, para o pólo e para as cidades vizinhas.  Deixam de ser, portanto, apenas cidades-dormitório, passando a ofertar, também, a maioria dos serviços   tornando-se, dessa forma,  concorrentes da cidade-pólo.
Quando, além dos serviços citados, a cidade-pólo conta com economias de aglomeração, muito importantes na consolidação de pólos ou clusters  industriais e respectivos serviços complementares, essas vantagens locacionais  passam, também,  a ser compartilhadas com a cidade-satélite, especialmente as mais bem localizadas geograficamente (caso típico de Içara),  que se tornam concorrentes na atração de investimentos  industriais a se instalar na região.
Ou seja, essas vantagens locacionais são regionalizadas, em torno do pólo, como ocorre com os colorifícios que, atraídos pela presença de um pólo cerâmico de importância nacional, fixam-se em Içara, Morro da Fumaça ou outro município da região, por contar com vantagens pontuais, como maior disponibilidade de terrenos, menores custos de localização, incentivos fiscais e econômicos dos referidos municípios, ou, até mesmo, para fugir de eventuais  deseconomias de aglomeração, que iriam enfrentar em Criciúma  (ex. traçado da cidade, ruas estreitas, trânsito complicado), gerando demora e estresse nos deslocamentos.
Igual fenômeno ocorre com outros setores industriais bem desenvolvidos na região, como plásticos, confecções, tintas e outros. Acrescente-se, a propósito, que esses mesmos fatores favoráveis de localização explicam diversos casos de transferência de plantas industriais de Criciúma para outros municípios vizinhos.
Finalmente, é oportuno salientar que o fenômeno registrado em Içara, com relação a Criciúma, repete um modelo de maiores dimensões que ocorre na Grande Florianópolis, cortada pela BR-101. Lá o primeiro município favorecido pela vizinhança da capital foi São José, que tem experimentado fase de grande crescimento, tirando proveito dos fatores de localização proporcionados pela região metropolitana da capital.
Hoje tal fenômeno se repete em Palhoça, um município de grande área, cortado longitudinalmente pela BR-101, contando, igualmente, com o ”fator capital”, o que não ocorre no município de  Paulo Lopes, da mesma região, mas cuja sede  fica  a  45 quilômetros da capital.

* Economista/MSC Desenvolvimento Regional (ajfabre@gmail.com)         ** Publicação: Engeplus, 19.12.06







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